Expedição Cultural percorre o Vale do Jequitinhonha e revela tradição do artesanato mineiro
Durante nove dias de junho, o grupo percorreu cidades de Caraí, Santana do Araçuaí, Itaobim, Itinga, Araçuaí, Berilo, Minas Novas e Turmalina.
Artesanato que brota do barro e mãos que moldam histórias. Em sua 4ª edição, a Expedição Cultural pelo Vale do Jequitinhonha levou 18 mulheres para percorreram essa região de Minas Gerais rica em cultura e acolhimento.
Durante nove dias de junho, o grupo percorreu mais de 500 quilômetros pelas cidades de Caraí, Santana do Araçuaí, Itaobim, Itinga, Araçuaí, Berilo, Minas Novas e Turmalina.
Tudo começou com um programa de televisão. “Eu assisti sobre a Zezinha [a artista Maria José Gomes da Silva] e a produção das bonecas na casa dela, e aquilo me encantou”, conta Cássia Duarte, coordenadora da expedição.
“O Jequitinhonha já fazia parte do meu imaginário, como eu acho que faz parte do imaginário de muita gente, porque é uma região cercada de realizações, de artesanato, de luta e de mitologia. E quando eu vi esse programa, eu falei: ‘Gente, eu preciso conhecer esse lugar’”, ressalta.
A ideia, no entanto, não se concretizaria sem a parceria com Mary Arantes, curadora de arte e nascida em Rio do Prado, que conhece o Vale como poucos. “Mary é uma apaixonada pelo artesanato que nasce dessa terra”, explica Cássia.
Mary conta que sempre levantou a bandeira da valorização da cultura brasileira em seu trabalho. “Em tudo eu via beleza e buscava deslocar esse olhar, mostrando que, por exemplo, é possível fazer uma coleção inspirada no São João sem que ela precise ser usada apenas nas festas juninas. Vivemos em um país multicultural, e Vale é uma das regiões mais potentes culturalmente, com uma riqueza impressionante. A Cássia, que sempre acompanhou meu trabalho, me chamou para participar da expedição”, conta.
Quando recebeu o convite de Cássia, topou na hora. “Quando vou para lá, me sinto uma menina pequena. Eu me reencontro comigo mesma”, afiança, destacando que sempre pergunta às pessoas o que estão buscando quando decidem participar da expedição.
“É lindo perceber que gente com condições financeiras responde que foi a melhor viagem da vida. Elas vão até lá buscar aquilo que a sociedade perdeu: a delicadeza, a simplicidade, a verdade das relações”, analisa.
A ex-deputada Maria Elvira foi uma das participantes que teve essa sensação. “Cheguei da Europa e já na semana seguinte fui pro Vale do Jequitinhonha. Eu gostei muito mais desta viagem. Aquelas pessoas têm uma força, uma vontade, uma tradição, uma imensa criatividade... Eles amam o lugar que vivem e a arte que fazem, e isso é uma das coisas mais lindas que eu já vi”, celebra.
Maria Elvira se inscreveu na expedição movida pela curiosidade de conhecer uma região que, em suas palavras, “muita gente fala que tem muita pobreza.” Mas descobriu, no entanto, algo bem diferente.
“Eu não vi pobreza lá, mas simplicidade, que é bem diferente. E dessa simplicidade vem muita fartura. Onde quer que íamos encontrávamos um morador fazendo um cafezinho com biscoito e broa, outro com uma bacia de mexerica pokan, outro com um almoço com carne de sol e maxixe, com produtos da natureza direto para a mesa. E isso é uma das maiores riquezas que podemos encontrar. Eles têm uma arte popular vibrante, paisagens deslumbrantes e uma deliciosa gastronomia que reflete a simplicidade e a riqueza de sua gente”, identifica.
A programação da expedição foi planejada para proporcionar uma imersão genuína na produção artística local. Em Caraí, a primeira parada, o grupo visitou a família de Ulisses Pereira, um dos maiores ceramistas brasileiros do século XX, e seus descendentes (José Maria, Margarida, Rosana e o bisneto Juninho), que mantêm vivo o legado do mestre.
“O Vale é tão grande que é dividido em três partes. Começamos pelo Baixo, direto até Caraí, onde está um dos polos da cerâmica brasileira, reduto da família de Ulisses Pereira. Ele deixou o legado de um estilo que domina aquela região, inovou completamente. Uma pessoa do Baixo Vale que não teve alfabetização formal criou figuras zoomorfas e antropomorfas, abrindo uma porta gigante para o homem ceramista”, elabora Mary Arantes.
A curadora destaca a importância de entender a origem dessa arte. “A cerâmica, que era apenas utilitária, tem origem na comunidade indígena. Quando os portugueses chegaram, a cerâmica começou a ser vista como nicho de venda porque eles trouxeram porcelanas de fora e começaram a pedir que os locais fizessem peças maiores”, salienta.
A expedição também passou por Santana do Araçuaí, reduto de Dona Isabel, outra mestra reconhecida internacionalmente. “Ela foi extremamente generosa e ensinou a todos como fazer. As primeiras bonecas eram de sabugo, depois começou a fazer bilhas, entendeu que a cabeça da bilha poderia virar boneca. É lindo entender esse processo”, aponta.
O Vale do Jequitinhonha, observa Mary, é profundamente feminino. “As mulheres aprenderam na raça com maridos que saíam para o êxodo rural, e elas ficaram cuidando dos filhos”, explica. “O forno onde fazem a queima da cerâmica fica quase grudado na casa. Elas estão sentadas, olhando para o menino no chão, iniciando o repasse da formação. O menino já fez bonequinho, de olho no forno”, diz.
Essa transmissão de conhecimento é, para muitos participantes, o momento mais marcante, como ressalta Maria Elvira. “O que vivenciamos lá não tem preço. O artesanato que aquelas mulheres da região produzem tirando literalmente da terra, do barro, do nosso chão... Isso é história!”, encanta-se.
A coordenadora Cássia Duarte define a experiência como transformadora e destaca a recepção calorosa das comunidades. “Em todo lugar que você chega, tem um café, tem um chá, tem um biscoito de polvilho, tem um fogo aceso saindo um bolo de fubá. A gente manda o comunicado com a data da nossa visita, então nós somos esperados com um carinho inominável. Todas nós somos abraçadas. O que surpreende muito é o capricho dos pequenos jardins, das pequenas flores, das dálias que têm na porta de cada casa”, evidencia.
Mary Arantes concorda. “A receptividade é ímpar. Muitas associações recebem os grupos com cantos, jogando versos, com batuque e violão e todas dançando para nas receber. A fartura é certa, mesas imensas com biscoito de polvilho, bolos e o famoso chá de amendoim. Sucos variados e combinações diversas com suco de limão capeta com capim cidreira. Nos almoços não falta, farofa de andu, galinha caipira, torresmo, maxixe e o que mais tiver no quintal”, comenta.
Maria Elvira nem deixa dúvidas: “Quando tiver a próxima, eu vou querer ir de novo. Temos muito o que conhecer no nosso estado”, arremata.